VERBA VOLANT (Never Write Bullshit) / Uma exposição de Alfredo Covarrubias featured by Alberto Casari & PPPP

Textos / Texts
10/2016 / Galeria Pilar, São Paulo, Brasil.

O projeto ao qual faz parte essa exposição está feito à base de ações e ficções. E tanto atuar quanto criar ficções são duas das chaves imprescindíveis que vão se desenvolvendo de modo paralelo e simultâneo para sua própria existência.

  1. A FICÇÃO

PPPP (Produtos Peruanos Para Pensar) é o nome do projeto. Nasceu em 1994, como a companhia comercial do artista Alberto Casari, na qual começaram a trabalhar o crítico Patrick Van Host e o poeta e artista Alfredo Covarrubias, e que, mais tarde, adicionaria ao seu quadro os também artistas Arturo Kobayashi e El Místico. A atividade do PPPP está focada na criação de obras artísticas em várias mídias, sendo Covarrubias responsável das propostas mais conceituais e ligadas à escrita.

Mas, quem é Alfredo Covarrubias?

Se olhamos as obras que fazem parte dessa mostra – a primeira individual do artista no Brasil, depois de ter participado na 30ª Bienal de São Paulo, 2012, e de fazer um show na companhia de El Místico nessa mesma galeria em 2014 – poderíamos pensar que é um poeta visual que fala várias línguas, fuma e tem um grande conhecimento da história da arte ocidental e da filosofia budista oriental. Se mergulhamos na bibliografia existente, encontramos que nasceu em Lima em 1956; e cursou Letras durante apenas dois anos, 1977-1979, na Universidade Nacional Mayor de San Marcos da mesma cidade. Depois alistou-se como marinheiro num navio mercante grego. Sua viagem finalizou em Paris no início da década de oitenta. Uns anos mais tarde mudou-se para Roterdã, Holanda, onde mora atualmente. Lá dirige um restaurante, além de continuar sua produção como poeta. Em algum dos textos sobre o PPPP ele é descrito como “poeta marginal”, “um vírus, um meteorito inalcançável que não se detém em uma área específica”, ou “além de ser poeta e escritor, é uma eminência parda, a mente do PPPP”.

  1. AS AÇÕES (OU AS OBRAS)

Especificamente nessa mostra, o PPPP na direção de Alberto Casari apresenta oito trabalhos do artista Covarrubias, sendo cinco deles novas produções feitas para VERBA VOLANT.

O título da exposição faz referência à intervenção de Caio Tito no senado romano: “verba volant, scripta manent”, que significaria “as palavras voam, a escrita permanece”. Se bem que em ocasiões recentes a expressão pode ter sido usada com o propósito de necessidade de fixar as ideias para elas não sumirem (ver a carta que Michel Temer enviou à presidente Dilma Rousseff no dia 7 de dezembro de 2015[1]). Mas, na origem e como é recolhida posteriormente na história da literatura, indica o oposto anunciado: o perigo de escrever as coisas que com o tempo podem perder o sentido. No prólogo da obra de Alberto Gerchunoff, Retorno a Don Quijote, 1951, o mestre Jorge Luis Borges escreve: “Triste e glacial imortalidade a que as efemérides, os dicionários e as estátuas outorgam; íntima e cálida a dos que perduram nas memórias, no comércio humano, vinculadas à anedotas preferidas e a sentenças felizes. (…) o adágio latino Verba volant, scripta manent, no qual agora é vista uma exortação a fixar com a caneta os pensamentos, foi dito para prever o perigo dos testemunhos escritos”.

É por isso que ao título acrescenta-se entre parêntesis “nunca escrever besteiras”. Um interessante risco se pensamos em que todas as obras presentes estão baseadas na escrita.

A peça principal da exposição Meditation Rug nº5, 2016, é um grande tapete de 2,30 m x 1,70 m, feito artesanalmente com as letras flutuando num fundo geométrico abstrato, que formam a frase “Acepta el momento y no hagas resistencia. Siéntate en la alfombra y medita sobre esto” (Aceita o momento e não faça resistência. Sente-se no tapete e medite sobre isso). Nela, além da referência às experiências realizadas por Boetti com os tecelões afegãos, podemos encontrar já uma das grandes inspirações do artista, e também de Casari, e que se revela também nas outras peças da exposição. São essas as propostas estéticas de John Cage, especialmente de sua Lecture on nothing, 1959, e a frase “I have nothing to say and I am saying it” (Não tenho nada a dizer e estou dizendo). Assim, na pintura Painting with John (Mirror painting version), 2016, Casari seguindo as instruções do artista escreveu com a mão direita e a esquerda ao mesmo tempo e de forma espelhada e em inglês “Não tem nada para ser pintado e estou pintando”.

Assim como aquela, as outras obras da série, todas em óleo sobre papel colado em tela, vão propondo diferentes mantras, mandalas ou frases sobre o nada, a ação do nada ou nossa relação com ações que nos distraem da meditação sobre a existência. Da mesma forma, acontece também no políptico de seis telas The Natural World, onde as pinturas remetem tanto à impossibilidade de contemplação do mundo natural em nossa sociedade, quanto à necessidade de pensar sem intencionalidade ou atuar, fazendo homenagem também a artistas como ao povera Giovanni Anselmo (“Cortar a tela e entrar na obra” e “Manchas e buracos feitos pelo artista”), ou escrever, em alusão direta ao título da exposição: “Nunca escrever besteira”.

Para completar a seleção, nas salas se encontram três obras mais antigas, igualmente focadas nas mensagens escritas. As telas Mantra para o século XXI, 2002, exortação ao desaparecimento de um mundo alienado e consumista; Sem título, 2006, com a frase em inglês “sinta-se livre para perguntar”, e a enigmática mármore de 2003, também sem título, na qual lemos: HIJOS DE PUTA.

  1. UMA LEITURA AO MESMO TEMPO DAS FICÇÕES E DAS AÇÕES

No ano de 2016 está se comemorando o quarto centenário da morte de Miguel de Cervantes, ilustre autor de um romance universal, Dom Quixote de la Mancha[2]. Uma efemérides é sempre uma boa técnica de marketing, além de homenagens merecidas, para voltar a relançar um produto, um livro, uma coletânea, novos estudos… Nesse caso, a estrutura e a história mesma do romance tem muito a ver com a história dessa exposição. No começo do Quixote, o escritor cria uma ficção para deixar na sombra sua autoria, criando um conto pelo qual ele teria encontrado o manuscrito num sebo. É um livro sobre aventuras de cavaleiros que não deixa de ser um questionamento dessa mesma classe de literatura e uma ampla e irônica crítica da sociedade do momento. O autor não ficou rico com o sucesso da edição, já que tinha cedido os direitos ao editor, um tal de Francisco de Robles. Antes da publicação da segunda parte, já existia uma versão apócrifa, conhecida como “Quijote de Avellaneda”. E várias versões foram criadas, destacando novamente a de Borges e seu Pierre Menard, Autor do Quixote[3]. O argentino, que já tinha pedido para “não acrescentar mais nada”, nessa versão apresenta uma cópia do texto cervantino, mas atualizando-o ao mudar o suposto contexto no qual tinha sido escrito novamente, dessa vez por Menard no século 20.

O esquema que Alberto Casari constrói em PPPP reúne muitas dessas características e estratégias. Primeiramente, a companhia é, mais do que tudo, uma performance contínua do artista onde consegue desenvolver sua pesquisa através de vários heterônimos, dos quais Covarrubias é um deles. Uma ficção contínua onde a autoria é colocada em questionamento: quem faz, quem assina, quem reconhece, quem é apresentado como autor, na qual Casari seria sempre o editor, o diretor da empresa que fica na sombra. Esse ato, que está na gênese do projeto, significa uma reflexão constante sobre a materialização de objetos e ideias para o consumo, bem como a procura ou criação de fetiches (a obra única assinada), porém usando as estratégias da produção capitalista, também inerente aos objetos de arte.

Casari questiona os modos de produzir e suas repercussões sociopolíticas: o que, como e onde. O objeto de arte como ação mínima e com apropriação, ou roubo como às vezes define ele mesmo, de obras artísticas anteriores. Além são produzidos como artigos de consumo por uma empresa radicada no chamado Terceiro Mundo e, portanto, fora dos grandes eixos internacionais do mundo globalizado e, ainda, de atitudes colonialistas. Mas também fala de um enfoque da produção como qualidade absurda de nossa sociedade. Não é só apenas a preocupação que desde os anos sessenta existe na cena artística de como fazer arte e, por isso, é impossível esquivar as propostas sobre o objeto e seu sistema que Casari copia de Cage, Boetti, Munari, Anselmo ou Fontana. O artista, Casari nas palavras e obra de Covarrubias dessa vez, vai além questionando aqui o sistema social marcado pela estrutura do sistema mercantil que cria a necessidade mesma de inventar novos objetos que habitem a terra, num chamado, que parece surgir da meditação zen, para um sistema de vida totalmente alheio ao mundo atual neoliberal.

Um chamado, mas também um grito, nunca isento de bom humor. E com esse espirito irónico, poderia parecer, então, que são muitos, nós inclusos, os candidatos ao epitáfio HIJOS DE PUTA.

 

 

 

[1]São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015. Senhora Presidente, “Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem) Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio. Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo. Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos…”

http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/12/leia-integra-da-carta-enviada-pelo-vice-michel-temer-dilma.html

[2] Miguel de Cervantes, El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, 1604; Segunda parte del ingenioso caballero don Quijote de la Mancha, 1615.

[3] Jorge Luis Borges, Ficciones, 1964.