Sara & André / A matriz e o paradigma

Textos / Texts
03/2016 / 3+1 Arte Contemporânea, Lisboa, Portugal.
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A SUA OBRA (…) (…) DE FORMAS INOVADORAS

As únicas indicações que recebi para escrever este texto foram o número de palavras – 600 a 1.200 –, uma data de entrega e um email entrando em contacto com os artistas Sara&André.  [32 palavras]

A ideia principal da exposição ficou clara desde o início: apresentar obras realizadas segundo instruções de outros artistas. Como articular então, um texto que não descrevesse, mas que desse resposta em si mesmo ao projecto? Para compreender esta operação teria que encontrar as minhas próprias instruções. [78 palavras]

Existe um referente inevitável: o Manual de estilo del arte contemporáneo de Pablo Helguera[1]. Neste, o autor refere-se à escrita de textos, sejam comunicados de imprensa, ensaios ou encomendas. Ao ser este o texto que estará na exposição, importa pensar a sua função divulgativa, além da reflexiva. Para isso, seguirei livremente alguns conselhos dados em todas as categorias. [137 palavras]

Para definir um título, sintetizei o modelo de definição de artista e obra. Helguera propõe um quadro, em que a primeira e a última coluna são invariáveis: a sua obra – de formas inovadoras. O verbo, coluna 2, e o objecto indirecto, coluna 3, seriam uma combinação de: consiste na exploração de / explora / critica / reflecte acerca de – o modernismo / o seu suporte artístico / a sociedade / as suas experiências pessoais / o conceptualismo. Qualquer composição, neste caso, seria plausível como epígrafe. [222 palavras]

Segunda instrução: usar resultados do Google como bibliografia[2]. A busca por ‘’instruções para textos curatoriais’’, devolve cerca de 263.000 entradas. Encontro http://mon.ellieirons.com[3], blog de comunicação dos alunos de Syllabus Fall. Em 24/11/12, publicaram conselhos para uma proposta curatorial válida com apenas 500 palavras, de acordo com a estrutura facultada por Elisabeth Sussman no catálogo Invented Worlds[4][281 palavras]

  • Introduction— artist names, title, how the artists work, the main theme (kind of like the “thesis statement” or “elevator pitch” for the exhibition).

Sara (1980) e André (1979), nasceram em Lisboa, onde vivem e trabalham. Como descreve David Santos: ”Sara&André andam há mais de dez anos a elasticizar os limites da sua artisticidade, reconvertendo em cada projecto o reconhecimento ou, por contraste, o dissentimento da sua condição. O que os move é, afinal, o questionamento sistemático daquilo que, apesar do jogo de fronteiras e negociações da nossa contemporaneidade, persiste em distinguir e classificar o objecto enquanto obra de arte e o artista como um ser com atributos aparentemente específicos.”[5] Das suas estratégias de cópia, apropriação e encomendas durante este período de tempo, destacam-se as séries Fundação, desde 2007 – obras sobre eles realizadas por outros artistas -, e desde 2012, a produção de obras plagiando o estilo de Julião Sarmento, Batarda, Lourdes Castro ou Nikias Skapinakis. Nesta mesma linha, recolhem instruções de artistas desde 2009, ano que viram as de Yoko Ono na Bienal de Veneza. Contam agora com 13 livros de regras, milhares de potenciais obras, sendo esta exposição uma selecção das mesmas e o inicio da série ‘’Instruções’’. [482 palavras]

  • Context — these works were not made in a vacuum, what else was going on? historical context, both within the art world and outside of it.

Retomam assim a discussão sobre o quê e quem é validado como obra e como artista, através da repetição do pensamento de artistas já reconhecidos, o que significa, nas suas palavras, ‘’evitar ao máximo a responsabilidade do acto criativo’’ (o uso de entrevistas com os artistas, outra das directrizes de Helguera, isenta o escritor de responsabilidades). [564 palavras]

Desde os anos 70 que os artistas conceptuais enfatizam o pensamento e a sua livre circulação como obra, em detrimento da produção objectual autoral: entre outros Baldessari, Yoko Ono ou Sol LeWitt, que são agora instrutores de algumas das peças de Sara&André. Além disso, somam outros referentes que vão mais além da racionalização da selecção e / ou repetição de acções do quotidiano como obra de arte. To make a Dadaist Poem de Tzara, 1920, inicia a prática do fazer-absurdo como repetível e exportável, que encontraremos nas indicações seguidas de Fluxus, Rob Pruitt ou Jimmy Durham. [660 palavras]

  • Expanding the thesis— talk specifics about the works and how they relate- this is a good place to compare and contrast specific works. Use the works as evidence to support you curatorial mission! Talk about why the works you’ve included are so great and why viewers should appreciate them.

Pensemos nas instruções como metalinguagens: partituras musicais, obras teatrais, guiões cinematográficos, receitas gastronómicas ou livros de auto-ajuda. Samuel Smiles[6] escreveu em 1859, o primeiro Self-Help, ‘’bíblia do liberalismo vitoriano’’, onde destaca a irresponsabilidade como causa de pobreza e como contrária ao progresso. Adaptando o seu pensamento a Sara&André, chegar-se-ia ao fantástico paradoxo de procurar o reconhecimento adoptando a mais irresponsável das posições: seguir instruções de outros. Assim, a validação do trabalho é oferecida por nomes já legitimados no meio da arte. Uma espécie de recuperação da aura da obra de arte através de um acto banal, o da imitação dos que defendiam de acordo com Benjamin[7], a sua perda. Esta relação de reprodução do outro é fundamental na interpretação da sua proposta geral: a experimentação contínua das relações humanas. Como defende Adorno: ‘’O humano apoia-se na imitação: um ser humano só é verdadeiramente humano, quando imita outros seres humanos.’’[8] (Estas duas referências correspondem ao termo helgueriano “adornamento”[9]). [869 palavras]

Três exemplos nesta sala reforçam a ideia de construção do artista através do paradoxo da negação da genialidade, e da integração no sistema da arte. A primeira obra, My first great artwork, segundo Dana Hoey, pintura do trabalho Claim to Fame #1 onde defendem a apropriação como obra; Rules Assignment (1), proposta por Jackie Brookner, na forma de infinita relação de citações e Signatures, segundo Annette Messager, uma compilação de possíveis assinaturas de Sara&André. [943 palavras]

  • Aesthetic & Conceptual— Be sure to touch on both of these areas! What is the artistic intent or concept behind the works? How do the works actually look to the audience- what is the aesthetic experience of the viewer?

Os artistas sublinham a falta de unidade formal ou estilística das obras, reforçando assim o conceito que lhes é comum enquanto conjunto. A experiência de como nos relacionamos com uma série de trabalhos que procuram estudar as próprias relações de reconhecimento, auto-afirmação e poder num determinado sistema, torna-se uma repetição destas mesmas condições. Uma exacerbação irónica de um sistema no qual a presença do artista existe na sua própria dissolução, como poderia dizer Boris Groys[10]. [1.059 palavras]

Para finalizar este jogo de cópias e (ir)responsabilidades, recorro a uma última citação de Helguera: ‘’Como o leitor não terá, regra geral, tempo para descodificar cada frase do comunicado, a leitura do comunicado converter-se-á num acto de fé’’. [1.097 palavras]

 

 

[1] Pablo Helguera, Manual de Estilo del Arte Contemporáneo, Tumbona Ediciones, México, 2005

[2] El propio libro de Helguera está disponible on-line en su versión española http://vereda.ula.ve/curador/assets/docs/PH_MANUALDEESTILODELARTECONTEMPORANEO_PabloHelguera,SF.pdf

[3] http://mon.ellieirons.com/blog/2012/11/26/writing-a-curatorial-statement/

[4] Elisabeth Sussman, Caroline A. Jones, Katy Siegel, Remote Viewing: Invented Worlds in Recent Painting and Drawing, Whitney Museum of American Art, New York, 2005.

[5] http://www.museuartecontemporanea.pt/pt/programacao/Exercicio-de-estilo

[6] https://en.wikipedia.org/wiki/Self-help_book

[7] Walter Benjamin, Obras. Libro I / vol. 2, Abada Editores, Madrid, 2008.

[8] Adorno, T. W., Notas sobre Literatura. Obra completa, 11. Akal, Madrid, 2004

[9] Adornamento: “Práctica de certos curadores e críticos de citar compulsivamente nos seus textos várias frases

desconectadas dos filósofos Theodor W. Adorno (que dá origem ao termo), Baudrillard, Derrida, Deleuze, Nietszche y Benjamín. A técnica do adornamento, tal como a do barroquismo, não tratar de não dizer nada, mas antes em dizer algo que no fundo não tem nenhuma relação”. En Op. Cit. 1

[10] Boris Groys, Volverse público: las transformaciones del arte en el ágora contemporánea. Caja Negra editora, Buenos Aires, 2014.