O Sublime e a Distopia

Proyectos Curatoriales / Curatorial Projects
11/2014 / Kunsthalle, São Paulo, Brasil
Artistas: Leticia Ramos, André Trindade and Filipa Cordeiro
English version

“O lago Vostok é um tipo análogo de ambiente extraterreno como os que podem existir em lugares como Europa, o satélite de Júpiter”

O SUBLIME…

Você está parado no alto da montanha. O mundo todo está à sua frente.

Essa atitude é a mesma do caminhante romântico que vagava na natureza a procura dos saberes perdidos, anestesiados pelo mundo da razão. Eles, esses conhecimentos que tinham a chave da criação genuína, deixavam-se entrever nas paisagens majestosas e nos lastros de antigas civilizações. A alma romântica, arrebatada, entrava em conexão com eles através da paixão despertada nos encontros com o mais terrível ou a beleza mais extrema. O conhecimento então transmitido na união e fusão, na dissolução nessa Natureza.

“A imaginação constitui a mais ampla esfera do prazer e da dor, dado ser ela o campo de nossos temores e de nossas esperanças, assim como de todas nossas paixões a ela ligadas, e tudo é apto a nela gerar essas ideias  imperiosas, mediante a força de uma impressão primitiva e natural, necessariamente tem a mesma influência sobre a grande maioria dos homens… Amor, pesar, medo, raiva, alegria, todas essas paixões, cada uma em seu turno, causaram efeito em todos os espíritos… A paixão a que o grandioso e sublime na natureza dão origem, quando essas causas atuam de maneira mais intensa, é o assombro, que consiste no estado de alma no qual todos os seus movimentos são sustados por um certo grau de horror.”

(Edmund Burke, A Philosophical Enquiry into the Sublime and Beautiful, 1757)

Aqui, agora, detido e suspenso, é o fundo do lago Vostok, a quatro quilômetros abaixo do gelo na Antártica. Silêncio máximo, obscuridade quase total. Leticia Ramos soube dele durante uma residência no Pólo Norte, lendo a notícia do seu descobrimento e da retirada de amostras, pequenas “cápsulas do tempo” que contém água do primeiro período glacial, pelos cientistas russos na base do mesmo nome.

Só por algumas horas, em alguns dias, sempre em movimento, é a lua que fica olhando o satélite Europa do planeta Júpiter. Lá rememora-se uma Terra fértil, luminosa, preenchida pela linguagem dos animais. Filipa Cordeiro e André Trindade resgatam em “Verão Eterno” esse lugar sempre sonhado, paraíso natural reconstruído sobre as ruínas de uma civilização anterior.

… E A DISTOPIA.

Terrível é também a distopia. Um pensamento que nos mostra o destino mais extremo, a sociedade mais desviada, aonde o progresso, o positivismo, o liberalismo convertem-se no amo opressor de um homem, então sim, sem futuro. Uma modernidade formada por projetos que já foram utópicos onde o homem racional e a máquina como seu instrumento dominam o mundo. Nestas latitudes criaram cidades, povoaram céus, destruíram florestas e provocaram grandes migrações transcontinentais.

Octavio Paz define a Modernidade como uma moeda com duas faces opostas: “O Romanticismo foi uma reação contra a Ilustração e, por tanto, foi determinado por isso: foi um dos seus produtos contraditórios. Tentativa da imaginação poética por repovoar as almas que tinha despovoado a razão crítica”. (Octavio Paz, Los hijos del limo. Del Romanticismo a la Vanguardia, 1974).

Quando o homem, como centro do universo, some, como acontece na ilha que Bioy Casares inventou, a Morel:
Qual é o espaço para a existência do real? Qual o lugar da invenção na construção da memória e da historia?

Ano 2020: “… qualquer coisa que for revelada na nossa viagem a Vostok seria infinitamente sublime”, nos contará o cientista russo Poppovisky. A pesquisa sobre a água, elemento imprescindível para o surgimento de vida, realizada no fundo do lago é suspensa e abandonada devido às interferências das torres de celular.

Uma data futura incerta: as figuras do caos contrapostas às da calma, máscaras rituais e prédios inconclusos se transformam em naves que permitiram ao homem fugir e à Terra renascer. “Verão eterno”, na sua sucessão de imagens metafóricas, se converte em testemunha da volta a um mundo vivo, mas sem nós.

Segundo Eduardo Viveiros de Castro a definição do significado do “perspectivismo” ameríndio baseia-se nas “ideias, presentes nas cosmologias amazônicas, a respeito do modo como humanos, animais e espíritos vêem-se a si mesmos e aos outros seres do mundo. Essas ideias sugerem uma possibilidade de redefinição relacional das categorias clássicas de “natureza”, “cultura” e “sobrenatureza” a partir do conceito de perspectiva ou ponto de vista.” (Eduardo Viveiros de Castro, Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio, Mana vol.2 no.2 Rio de Janeiro Oct. 1996).

No alto da montanha, olhando o lago preto ou a miragem da lua de Júpiter, pode encontrar a alma no mundo da ficção um modo de construir uma nova perspectiva?