Janaina Mello Landini / Labirinto Sintrópico

Textos / Texts
08/2016 / Zipper Galeria, São Paulo, Brasil.
English version

 … Primeiro, que reconhecemos o espaço como o produto de inter-relações (…) Segundo, que entendemos o espaço como a esfera das possibilidades da existência da multiplicidade (…) Terceiro, que reconhecemos o espaço sempre em construção.

Precisamente porque o espaço sob este ponto de vista é um produto de “relações – entre”, relações estas que são necessariamente incorporadas de práticas materiais a serem realizadas, mas sempre em processo de feitura. Nunca é finalizado; nunca está fechado. Talvez pudéssemos imaginar o espaço como a simultaneidade das “histórias-por-em-quanto”.[1]

*Alguns dados antes de começar:

  1. Na criação de um labirinto, os construtores usam uma série de algoritmos e combinações matemáticas na definição dos percursos traçados nele. Nos exemplos mais complicados, como o do chamado labirinto multicursal de múltiplas conexões, não existe uma única opção, sendo possível nunca encontrar o centro ou a saída.
  2. A sintropia foi definida no campo da estatística em 1988 como a medida do grau de “organização interna” na interação dos componentes que formam um sistema. A sintropia é o montante complementar à entropia, entendida como o grau de “incerteza”. Dessa forma, quanto maior é o grau da sintropia dessa organização interna, menor é a possibilidade do sistema colapsar.

 

Vilém Flusser: tapeçaria, abstração e arquitetura
ou representação, cálculo e filosofia

O livro Flusseriana – Uma Caixa de Ferramentas Intelectual apresenta o pensamento do filosofo Vilém Flusser a respeito do conceito de “tapeçaria” como um gesto sobre uma estrutura. Aquele em que a urdidura oculta a trama, a estrutura da qual é parte. Assim, “uma tapeçaria urdida com o desenho de uma paisagem se constitui como a representação de um mundo externo e cria na parede a sensação de janela, o que nos faz lembrar de Arthur Schopenhauer com a sua ideia de ‘mundo como representação’. Ainda que possua um desenho abstrato, a tapeçaria é uma representação que se constitui como uma espécie de negação de sua realidade mais imediata – que é a trama na qual está assentada. Neste sentido, poderíamos tomá-la como contra-representação”.[2]

Por meio do conceito de abstração e, sobretudo, pela capacidade de abstrair, Flusser analisa o embate do homem com o mundo. A aprendizagem é feita através de modelos codificados com os quais tentamos estruturar o entorno, e também a nós mesmos. Sobre essas construções, esses cálculos e a reconfiguração dos dados como se faz na álgebra se organiza uma lógica para acessar a realidade. Nesse sentido, o cálculo seria não só uma abstração matemática, mas a base da contemplação das formas externas. O desafio seria, então, o uso da aptidão de calcular na libertação das categorias impostas desde o Renascimento e o Iluminismo. Nessa abstração existe a possibilidade de novos projetos, da negação do abismo e da aceitação da crise da linearidade, com a criação de novas relações. Essa particularidade da multiplicidade – nômade e migrante – das categorias é a mesma que Flusser identifica na arquitetura, pensada como estrutura modular, sendo ela mesma metáfora do pensamento na procura de uma nova forma de filosofia.

Os três tempos

… Muda sua natureza e acrescenta suas conexões: nela, não há posições, só linhas.[3]

Janaina Mello Landini reconfigura em seu fazer artístico as concepções da estrutura do tempo no jogo das articulações do espaço. Cada um de seus trabalhos leva três aspectos temporais que não podem ser esquecidos, e juntos nos colocam ante um questionamento contínuo de estruturas apreendidas.

O tempo empírico, em primeiro lugar. Existe uma consciência do tempo como vivência. A fonte para as representações é a contemplação, a ação empírica do olho da artista sobre a paisagem onde vive. No início foi o caminho que via no percurso de sua casa ao trabalho, em Minas Gerais. Os reflexos e luzes foram formando um panorama outro – herança que ainda vemos na vibração criada pelo tratamento da cor das fitas e na tensão do elástico que compõem a instalação – , uma estrutura abstraída em pixels que são a origem da série “Labirintos”, ao transferir sua experiência para a cidade. Uma urbe que não se constitui como definida ou única, mas como um labirinto randômico e rizomático, onde os planos e vistas se multiplicam e se fundem fora da disposição cartesiana.

O tempo abstrato. A formação de Janaina como arquiteta faz com que ela planeje cada uma de suas instalações e peças como um projeto. Uma abstração que, por meio de cálculos estruturais e matemáticos, formalizam as concepções surgidas na observação. Nesse caso, as proporções de cada elemento que compõem o desenho deste labirinto seguem a sequencia de Fibonacci (0+1=1, 1+1=2, 1+2=3, 2+3= 5, 3+5=8, tendendo ao infinito). Mas existe outra lógica na composição, que engana nossa primeira percepção de estar na frente de um estudo clássico de perspectiva. As linhas desses labirintos não têm um ponto de fuga único, como também não tem um só ponto de vista. Todas elas formam a visão do que a artista define como “poli-olho”, resultando em um grande ciclotrama onde todos os pontos de vista possíveis se unem. Uma tentativa de “ver tudo” ou “de unir tudo, presente e passado”, que finaliza em uma anulação da perspectiva. O espaço seria, finalmente, uma armadilha, como pode ser o labirinto.

E, por último, o tempo histórico. Não o tempo da grande história, mas sim aquele que decorre na duração do trabalho manual, do tecimento da trama e da urdidura, aquele que provém da tradição das mulheres costureiras que lhe ensinaram a bordar. Seria o tempo dos pontos de vista contrapostos à perspectiva histórica como falaria Maria Thereza Alves[4]; ou o descrito pela Elizabeth Grosz nas nomeadas arquiteturas do feminino, que baseadas no excesso poderiam desestabilizar as noções patriarcais de espaço e tempo[5]. É esse mesmo tempo que põe em relação o trabalho de Janaina com mulheres artistas que já antes teceram alternativas em sua produção artística: Annie Albers, Louise Bourgeois, Teresa Lanceta, Gego, Claire Zeisler, Etel Adnam ou Sheila Hicks. Nelas se reclama um olhar outro, fora do pensamento hegemônico para o aprendizagem do mundo.

Assim, as três aproximações nos labirintos sintrópicos da Janaina Mello Landini negam os conceitos prévios de perspectiva e sua construção para mergulhar em sistemas de relações internos diversos e procurar novos saberes na fusão de jeitos de olhar e trabalhar o espaço e o tempo.

*Um último dado para finalizar:

  1. Teseu saiu do labirinto de Cnosso logo após vencer o Minotauro seguindo o fio do novelo que Ariadne tinha lhe entregado.

 

 

 

[1] Doreen Massey, For Space, Sage Publications, London, 2005.

[2] Siegfried Zielinski e Peter Weibel ed., Flusseriana – Uma Caixa de Ferramentas Intelectual, ZKM I Center for Arts and Media, Karslruhe, Vilém Flusser Archive at Berlin University of Arts, e Univocal Publishing, Minneapolis, 2015.

[3] Mónica Amor sobre a obra relação da obra de Gego e Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. “Another Geometry: Gego’s reticulárea, 1969- 1982.” October Magazine USA, Summer 2005.

[4] Maria Thereza Alves, Canibalismo no Brasil desde 1500, Periódico Permanente, n.4, 2013. http://www.forumpermanente.org/revista/numero-4/textos/canibalismo-no-brasil-desde-1500

[5] Elizabeth Grosz, Architecture from the Outside, The MIT Press Cambridge, 2001.