Ícaro Lira / Campo geral

Proyectos Curatoriales / Curatorial Projects
10/2015 / Galeria Central / São Paulo, Brasil.
  • EXERCÍCIO 1

… atravessava muito depressa o Campo de Concentração.

Rachel de Queiroz, O Quinze[1]

 “Se estamos ignorando nossa própria história, só penetraremos no passado arqueologicamente”

Giorgo Agamben[2]

Para saber desconfiar do que vemos, devemos saber mais, ver, apesar de tudo. Apesar da destruição, da supressão de todas as coisas. Convém saber olhar como um arqueólogo. E é através de um olhar desse tipo – de uma interrogação desse tipo – que vemos que as coisas começam a nos olhar a partir de seus espaços soterrados e tempos esboroados.

Georges Didi-Huberman, Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta[3]

Um primeiro exercício como ponto de partida. A leitura de citações heterogêneas, inclusive contraditórias, num mesmo texto e sua associação:

Primeiro, um campo. Atravessado rapidamente, visto tão fugaz que até se pode esquecer, apesar de que, ou talvez por isso mesmo, remeta às memórias mais dolorosas. Esse campo, que afinal é também qualquer um dos campos, das paisagens que percorremos, que fotografamos ou que lemos.

Segundo, duas formas de olhar para ele. O olhar que ignora, com um conceito de arqueologia como ciência normativa e fria que existe dentro de um sistema cúmplice, fundamentalmente político, no qual o controle da narração do passado procura construir uma forma determinante sobre as possibilidades do presente e do futuro. Ou o olhar inquieto, que esquiva esses discursos hegemônicos: escava, rastreia no insólito e questiona, através da criação de novas relações que revelam outras histórias, as esquecidas, as inomináveis, articulando novas vias do saber.

  • CAMPO DE SÃO PAULO I: Caminhos até monumentos de histórias já inventadas
  1. Vire à esquerda para permanecer na Praça Ramos de Azevedo

120 m

Vire à esquerda no Viaduto do Chá

250 m

Vire à direita na R. Líbero Badaró

190 m

Continue em direção à Praça Ouvidor Pacheco e Silva

63 m

Vire à esquerda no Largo São Francisco

O destino estará à direita

86 m

  • Idílio ou Beijo Eterno, imagem do amor entre uma índia e um francês, homenagem ao poema de Olavo Bilac (1865-1918). Poeta membro fundador da Academia Brasileira de Letras e criador da letra do Hino à Bandeira.

Parte do conjunto escultórico alegórico de William Zadig, 1920.

——

  1. Continue em direção à Av. Dr. Arnaldo

1,5 km

Continue em direção ao Viaduto Okuhara Koei

200 m

Continue em direção à Av. Rebouças

58 m

Continue em direção à R. da Consolação

100 m

Curva suave à direita na Av. Paulista

O destino estará à direita

1,0 km

  • Bartolomeu Bueno da Silva, mais conhecido como Anhanguera (1672 -1740). Um dos bandeirantes, exploradores e conquistadores do interior brasileiro. Seu apelido provém do nome da tribo indígena anhanguera do rio Tocantins que ele escravizou para obter ouro.

Escultura de Luiz Brizzolara, 1924.

——

  1. Continue em frente para permanecer na Praça Mal. Deodoro

450 m

Continue em direção à Av. São João

450 m

Vire à esquerda na Rua Helvétia

500 m

Vire à direita na Rua Guaianases

100 m

Praça Princesa Isabel

  • Luiz Alves de Lima e Silva . Duque de Caxias (1803-1880). Defensor da monarquia brasileira, lutou contra revoltas liberais e nas fronteiras contra movimentos de secessão ou ataques estrangeiros.

Escultura de Vitor Brecheret, instalada em 1960.

  • CAMPO SÃO PAULO II: Tipos e aspectos do Brasil
  1. Vire à esquerda na R. dos Timbiras

650m

Continue em direção à Av. Sen. Queirós

700m

Continue em direção à Av. Mercúrio

600m

Vire à esquerda na Rua do Gasômetro

700m

Continue em direção ao Viaduto Gasômetro

290m

Continue em frente no Largo da Concórdia

26m

  • Migrante Nordestino. Memorial aos migrantes do Nordeste que vieram como trabalhadores para São Paulo.

Escultura de Marcos Cartum, inaugurada em 2010.

 Sendo uma das áreas mais povoadas do Brasil, o Nordeste é o filão incansável que fornece ao país os contingentes impressionantes de braços para todas as atividades profissionais. Mas, não só a isto se deve a dispersão das gentes da terra sáfara na procura de outros rincões que se estremam pelas latitudes pátrias: o que expulsa o nordestino de sua gleba é mais propriamente a intermitência dos flagelos climáticos aliados ao descaso e abandono em que o homem de EUCLIDES se confina.

(O pau-de-arara, Francisco Barboza Leite) [4]

Tradicionalmente a “grande história” formou-se como uma relação de nomes e de marcos. Além da seleção de reis, guerreiros e governantes e suas façanhas, encontra-se outro protagonista: o povo. Um ator coletivo que como parte do imaginário nacional serve para que todo cidadão possa se identificar ou se projetar num mesmo ideal de glória pátria.

Em 1996 o IBGE publica “Tipos e aspectos do Brasil”, uma coleção de descrições de cada uma das regiões do Brasil, ainda com a divisão antiga de estados na qual a Bahia estava no leste ou São Paulo estava no sul. Cada capítulo se estrutura através de vários conceitos: as paisagens que são fontes de riqueza natural, os trabalhadores que as exploram e algumas peculiaridades regionais tratadas como exóticas ou problemas conjunturais. Cada um daqueles homens, com seu ofício especificado e com seu fenótipo descrito, é uma das forças de trabalho que moldam um país, o motor de progresso do conjunto nacional.

* Enumeração dos capítulos do índice de “Tipos e aspecto do Brasil”: REGIÃO NORTE / arpoadores de jacarés / caboclo amazônico / campos do Rio Branco / canoeiros dos rios encachoeirados / castanhais / gaiolas e vaticanos / pesca do pirarucu / pescador do pirarucu / regatões / seringueiros / trecho de um rio na Amazônia / vaqueiro do Marajó / vaqueiros do Rio Branco / Ver-o-pêso // REGIÃO NORDESTE / fazedeira de redes / agreste / água de cacimba / aguadeiro / usinas de caroá / babaçuais / balsas / caatinga / caiçaras no Rio Grande do Norte / cambiteiros / canavial / Carnaubais / cerâmica popular / cercas sertanejas / colheita de carnaúba / coqueirais das praias / criação de caprinos / engenhos e usinas / fabricante de farinha / fabrico de rapadura / feira do sertão nordestino / jangadeiros / legendas de caminhões nas estradas / mocambo / mutirão / colhedor de cocos / mandiocal / “pau-de-arara” / pescador de tarrafa / tangerino / vendedor de redes / porteira de moirões / rendeiras / tipos de pesca / tirador de caroá / trecho encachoeirado do São Francisco / vaquejada / vaqueiro / viveiros de peixe do Recife // REGIÃO LESTE / gruta de Maquiné / lavadeira / barranqueiros / barqueiros do São Francisco / burros de carga / cacaual / carro de boi / carvoeiro / costeiras / fabrico de tijolos de alvenaria / faiscadores / favelas / feira de gado / floresta da encosta oriental / gerais / grutas calcárias do São Francisco / manguezais / muxuango / negras baianas / espia / vendedor de coco verde / planície dos Goitacases / pranchas / região central de Minas Gerais / restinga / salinas / voçoroca // REGIÃO SUL / agregado / vindima / cachoeiras do Iguaçu / cafezal / campos de criação no Rio Grande do Sul / campos de Guarapuava / carreteiro / carroças coloniais / casa do praiano / casas de madeira do Paraná / charqueada / colheita do café / coxilhas / ervais / ervateiros / extratores de pinho / geadas e nevadas / bananeiro / galpão / gaúcho / uru / peão / pescadores do litoral Sul / pinhal / rodeio / serraria / travessia do gado / Vila velha // REGIÃO CENTRO-OESTE / alça prima / boiadeiro / bois de sela / buritizal / caçadores de onça / campo cerrado / casa do agregado / curral de aparte / derrubada / floresta-galeria / garimpeiros / mata de poaia / obrageiro / poaieiro / pantanal / tapera

Tão grande é a sua tarefa e tão poucos os seus recursos que ele a divide com os vizinhos, os compadres, os amigos: faz um mutirão. Todos se reúnem para levar de vencida a empreitada: o que um homem sozinho levaria muitas semanas para fazer será feito em poucos dias, nessa espécie de cooperativismo onde o trabalho será retribuído com o trabalho e diz muito bem que a união faz a força.

(Mutirão, Rosalvo Florentino de Sousa) [5]

  • CAMPO SÃO PAULO III: Tempos
  1. Vire à esquerda na R. Aurélia

700m

Continue em direção à R. Heitor Penteado

2,3 km

Continue em direção à Av. Dr. Arnaldo

1,2 km

Vire à esquerda na R. Maj. Natanael

O destino estará à esquerda

140 m

  • Chronos

Escultura de João Batista Ferri, 1945, situada no nicho do Cemitério do Araçá.

Chronos, o primigênio, divindade que personifica o tempo universal. Existia antes da formação do universo e após seu acasalamento com Ananké, a Inevitabilidade, formou uma espiral em torno do ovo originário dando lugar ao mundo ordenado em terra, mar e céu. É representado como um velho de cabelo e barba longos.

Muitas vezes ele é confundido com Cronos, o mais jovem dos titãs, que derrocou seu pai Urano (o céu) para ser o governante único na mítica Era Dourada. E, por sua vez, foi destronado pelos seus filhos Zeus, Hades e Poseidon. É associado ao momento da criação e representado com uma foice, a que utilizou para castrar seu pai e permitir assim a formação do mundo. Com ele chegam as colheitas, e o tempo humano, o regido pelo calendário da terra. Cíclico. Que se repete estação após estação.

O tempo não entrou na cena só depois de “um certo tempo” para dar lugar a uma gênese e, assim, engrenar um processo e desencadear uma evolução.

Étienne Klein, Las tácticas de Cronos[6]

Assim como há dois Cronos, duas imagens do tempo que se confundem, existem várias concepções do devir temporal. São tempos que influem diretamente na estrutura e desenvolvimento de uma narração, portanto também na construção do relato histórico e, consequentemente, na identidade da comunidade que o gera. Se pensamos as questões e as propostas que oferecem cada um deles, poderiam se repensar as ideias de historia e identidade, agora e daqui para frente.

Se falamos do tempo histórico, a semiótica identifica, por um lado, o tempo no qual aconteceu um fato, bem como o tempo do enunciador – o momento em que se escreve a narração do fato – além daquele no qual se encontra o leitor – momento em que a recebe e a lê. Por serem estes três momentos diacrônicos (que sucedem linearmente) podem se produzir entre eles diferentes tipos de descontinuidade, já que não leva em conta a defasagem temporal entre o tempo crônico, o tempo escrito e o tempo lido. Um enunciador, proclamado testemunha direta ou coletor privilegiado de testemunhos, molda nestes descontínuos a realidade a transmitir, em suas escolhas e, principalmente, em seus esquecimentos.

Somemos mais uma interpretação do tempo diacrônico. Distingue-se também na cultura ocidental entre tempo mítico, de um passado remoto e não comprovável segundo os parâmetros da ciência, e o tempo histórico, esse dos dados cientificamente contrastados.

No entanto, nas culturas orais indígenas brasileiras, exemplo de criação coletiva do relato, estes dois conceitos de tempo – o legendário e o supostamente fidedigno – se borram, numa noção não linear da narração. Em suas declamações não é o momento do fato o que conta, mas sim em que plano é apresentado. Segundo diz o Dr. Menezes de Souza[7], seguindo a descrição do antropólogo Da Matta, distinguem-se dois momentos ou lugares denominados (pela ciência acadêmica) “presente anterior” e “presente atual”. O primeiro, que na concepção ocidental se identifica com o mítico, corresponde a uma unidade na qual o mundo e tudo o que nele se encontra – seres e objetos sem distinção – muda continuamente; o segundo, assimilado como nosso tempo presente, refere-se a tudo o que acontece depois de um suposto “grande desastre primordial”, onde as formas se fixaram permanentemente, deixando os seres isolados. Como “presentes” os dois são sincrônicos, coexistentes em dois planos paralelos de realidade, sendo um cisão do outro e não colocados como sucessão um do outro. A tragédia do “presente atual” é não ser mais variável e uno em essência, como no “tempo anterior”, mas indivíduos, objetos fixos, não mutáveis e sem comunicação entre eles. Suas histórias orais diluem qualquer conceito de imutabilidade: a figura do pajé que tem a capacidade de se transportar de um plano para outro, procura em cada relato atualizações segundo as necessidades do momento da repetição da história, não existindo, dessa forma, um único tempo nem um único narrador em sua tradição.

Assimilar esta concepção temporal significaria um movimento em direção ao pensamento descolonizado dos conceitos ocidentais hegemônicos que estruturaram o pensamento do mundo em nossa sociedade. No texto “O mármore e o murta: sobre a inconstância da alma selvagem”[8], Eduardo Viveiros de Castro analisa o olhar colonial sobre a cultura tupi, olhar que não conseguia compreender a não violência e o canibalismo destes povos, que significariam uma capacidade de absorção e negação num mesmo tempo. Sendo a figura do indígena um dos mitos do imaginário colonial brasileiro, que passou do índio como bom selvagem ao índio inconstante e traidor, refletir partindo da cultura tupi abre um novo conceito de construção de conhecimentos, de relações com o outro e com a temporalidade. Para o tupi, assim como se extrai da análise da estrutura dos relatos nas culturas primigênias de Menezes de Souza, sua identidade se constrói na alteridade e não na origem. Está no outro, no desejo de intercâmbio e autotransfiguração. O choque se produz por ser o projeto civilizador colonial um programa com um sistema único. Não há espaço para outra cultura, e menos ainda para uma em que o poder só se estabelece na alteridade, e que codifica, assim, a absorção de novos conhecimentos e a relação temporal deles mesmos nesta experiência, não numa imposição linear de passado-presente-futuro.

Abre-se, então, a possibilidade de romper a unidade temporal e sua representação. Deixa-se entrar outro tipo de tempo, o paradoxal, que coloca sua essência na pluralidade e na capacidade de fragmentação e recomposição sem linha nem necessidade de continuidade. Estaríamos falando do fim do tempo estático da filosofia ocidental, o tempo que Ernst Bloch chama de “ainda não” e que Sousa Santos traz em sua elaboração como uma “sociologia das emergências”. Nela se poderia “substituir o vazio do futuro de acordo com o tempo linear e por um futuro de possibilidades plurais e concretas, simultaneamente utópicas e realistas, que vão se construindo no presente a partir das atividades de cuidado” [9].

  • CAMPO COMO PAISAGEM

“Não muda a paisagem. (…)

Assim para mim a Amazônia da borracha é a

Paisagem do delírio

e o Sertão é a

Paisagem da miragem”[10]

I – O RIO, O GARIMPO, A BORRACHA, A HIDROLÉTRICA: Manaus – Rio Negro / Iranduba – Rio Solimões/ Amazonas: Santarém / Alter do Chão / Belterra – Rio Tapajós: Itaituba / Aldeia Sawré Muybu-Munduruku / Fordlândia / Altamira / Belo Monte – Rio Xingu: Belém

II – O TREM, OS RETIRANTES, OS CAMPOS OU OS CURRAIS, OS MILAGRES E OS SANTOS: Fortaleza / Ipu / Canindé / Quixadá / Quixeramobim / Senador Pompeu / Iguatu / Cariús / Crato / Nova Olinda / Juazeiro do Norte

Nas últimas pesquisas no território de sua terra, o Ceará, Ícaro Lira percorreu no mês de julho as duas linhas dos trânsitos migratórios dos retirantes desde a década de 1840, marcados pelo evento climático da “seca”. As leis e decisões dos governos e os poderes oligárquicos e religiosos, com a ideia da modernidade e do progresso econômico como alvo, transformaram esse estado de seca num laboratório de novas medidas higiênicas, comportamentais, médicas e de controle da população, cujos efeitos são percebidos e repetidos até hoje, numa naturalização do patrimonialismo e do colonialismo interno. Configura-se, assim, uma cartografia hegemônica, onde os lugares são apagados e suas memórias negadas, numa estratégia de apropriação e violência.

Os retirantes, pessoas que tinham abandonado suas terras e procuravam comida e trabalho na capital, eram, dessa forma, tratados como personae non gratae ao ser elementos que perturbavam a imagem de progresso, beleza e modernidade que o estado procurava. A luta e o confronto foram a realidade contínua entres essas medidas disciplinares e as tentativas, usos e normas surgidos organicamente entre os milhares de pessoas que sofreram essa tecnologia do controle dos padrões biopolíticos. Com essas premissas duas linhas de ordenamento foram criadas: a dos campos de concentração que seguiam a linha do trem ao interior e a dos envios de trabalhadores da borracha nos navios que subiam pelo rio em direção à Amazônia. Vendidas como chance de entrada no sistema, essas viagens unicamente serviriam para continuar fora de lugar, fora das “oportunidades” da modernidade, revelando-se como “inserções que excluem”.

  • CAMPO [Cinema, Fotografia, Televisão]  Área que pode ser coberta por uma câmara.

Roland Barthes em seu texto “O discurso da história” lança uma pergunta inicial: “a narração de acontecimentos passados, que em nossa cultura, desde os gregos, está submetida geralmente à sanção da “ciência” histórica, situada sob a imperiosa garantia de “realidade”, justificada por princípios de exposição “racional”, essa narração difere realmente, por alguma característica específica, por alguma indubitável pertinência, da narração imaginada, tal como podemos encontrar na epopeia, no romance, no drama?” [11]

A ferramenta para gerar as conexões entre os campos – assunto, tema – é a imaginação, “o elemento afetivo tanto quanto o cognitivo[12] cuja dimensão subjetiva será a que permita a reconfiguração numa nova cartografia. Na obra de Ícaro Lira os campos se revelam nos objetos, os resíduos, as imagens, as memórias, as ficções, os dados coletados e vividos em suas viagens. Necessita-se, por tanto, em sua leitura um uso da percepção a partir do sensível e a partir do inteligível ao mesmo tempo, sendo possível, assim, uma construção de uma história paradoxal, que possa ativar um novo conhecimento que nos permita “ler o nunca escrito[13].

“Os colecionadores ou historiadores já não são esses aristocratas ou burgueses afortunados que podem confiar a um secretário a tarefa de realizar o inventário dos seus tesouros. Perambulam pelos caminhos afora, vagueiam, são indigentes. E assim, dada a sua própria pobreza, está ao seu alcance tudo aquilo de que necessitam para fazer a amostragem do caos.”[14]

  • CAMPO DE BATALHA – MESA DE EMERGÊNCIAS

O modelo desta estratégia de reunião de campos num Campo Geral é o Atlas Mnemosyne de Aby Warburg e a análise que dele realiza Didi-Huberman: essas analogias entre realidades incomensuráveis através de “imagens migratórias que ao ser levadas em consideração transformam todo “estilo artístico” e toda “cultura nacional”, como por abuso se diz, numa entidade essencialmente híbrida, impura, mestiça. Mescla a montagem de coisas, lugares e tempos heterogêneos…”[15]

A leitura destas convergências perde seu sentido numa linha vertical inamovível. O espaço tem que ser a mesa de trabalho, os dispositivos móveis que nos permitem reordenar e realizar vínculos uma vez ou outra de maneira inesgotável. Cortar, esmiuçar, construir montagens dinâmicas que mostrem essas “relações íntimas” não visíveis na abordagem classificatória positivista.

Desse modo, estamos convocados num lugar de conflito entre o desejo e a realidade – o qual descreve Foucault no conceito de “história efetiva” de Nieztsche –, nas heterotopias também foucaultianas – esses espaços de “crises e desvios” –, o nos platôs de Deleuze e Guattari – o lugar das variáveis “em estado de variação contínua” –, longe das versões dominantes da modernidade, num movimento não excludente.

As fotos velhas abandonaram os álbuns. Os objetos a guardar são os resíduos encontrados na viagem. Os livros de estudo juntam-se aos de cabeceira. O inteligível e o sensível. Tudo é reunido na mesa de trabalho. Ao mesmo tempo. Sem um tempo linear definido. Abre-se, então, a possibilidade de imaginar novos conhecimentos.[16]

[1] Queiroz, Rachel de. O Quinze. 1930. 1ª edição. Livraria José Olympio Editora, São Paulo, 1930.

[2] “The Endless Crisis as an Instrument of Power: In conversation with Giorgio Agamben” 4/06/2013. http://www.versobooks.com/blogs/1318-the-endless-crisis-as-an-instrument-of-power-in-conversation-with-giorgio-agamben

[3] Didi-Huberman, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. KKYM+EAUM, Lisboa, 2013.

[4] Tipos e aspectos do Brasil – coletânea da Revista Brasileira de Geografia. IBGE – Conselho Nacional de Geografia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966.

[5] Op. cit. 4.

[6] Klein, Étienne, Las tácticas de Cronos. Siruela, Madri, 2005.

[7] Menezes de Souza, Lynn Mario T. “Uma outra história, a escrita indígena no Brasil”, website Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental ISA, Brasil, março 2006. (http://pib.socioambiental.org/pt/c/iniciativas-indigenas/autoria-indigena/uma-outra-historia,-a-escrita-indigena-no-brasil)

[8] Viveiros De Castro, Eduardo B.  A Inconstância da Alma Selvagem e Outros Ensaios de Antropologia.  Ed. Cosac & Naify, São Paulo, 2002.

[9] Sousa Santos, Boaventura de. Descolonizar el saber, reinventar el poder. Ediciones Trilce, Montevidéu, Uruguai, 2010.

[10] Carta de Marta Ramos-Yzquierdo a Ícaro Lira, julho de 2015.

[11] Barthes, Roland. El susurro del lenguaje. Más allá de la palabra y de la escritura. Ed. Paidós, Barcelona, Espanha, 1987.

[12] Op. Cit. 3.

[13] Didi-Huberman, Georges, “Cascas”. In: Revista Serrote n.13, IMS, Rio de Janeiro, Brasil, março 2013.

[14] Op. Cit. 3.

[15] Op. Cit. 3.

[16] E-mail de Marta Ramos-Yzquierdo a Ícaro Lira, setembro de 2015.