Anna Israel

Textos / Texts
08/2016 / CCSP Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brasil
Presentação

A proposta da artista Anna Israel (Boston, USA, 1989) apresentada no Centro Cultural São Paulo (CCSP) é concisa. São apenas três peças monocromáticas distribuídas numa área aberta no prédio, sem paredes que definam um espaço determinado como expositivo. Sobre uma base, diretamente no chão ou amarrada a um dos pilares que sustentam a estrutura do centro cultural, as peças quase somem fundidas visualmente com o ambiente ao redor.

Os títulos dados aos trabalhos também são sucintos: Monocromático amarelo, Monocromático preto e Monocromático branco. Assim, a artista limita qualquer tentativa de determinar pontos de vista metafóricos ou simbólicos. Ela só proporciona ao visitante mais informação na descrição técnica dos elementos que compõem cada uma das peças: caixa amarela de carga de navio antigo, 36 lâmpadas fluorescentes amarelas, 18 reatores e cabos amarelos na primeira obra; amperímetro analógico, ventoinha, livro chinês, lente de projetor antigo, três lâmpadas neon, soquetes, cabo, sobre pedestal branco; e 2 caixas de som, 1 amplificador, 1 rede elétrica principal com 2 lâmpadas fluorescentes de 40W com reatores, 1 lâmpada de 15W e 1 ventoinha na parte inferior do objeto no conjunto que fica ancorado na coluna. Nessa descrição, finalmente, só pode ser analisada uma série de componentes justapostos acentuando a própria materialidade de cada um deles, sem uma aparente funcionalidade e deslocados dos seus usos comuns: só caixa, só lente, só lâmpada… só pura matéria, só pura cor.

Só pura matéria e só pura cor? Se bem não temos como dar nome a esses novos objetos e só pareceria que podem ser apreendidos na sua própria especifidade material e formal, sendo ela também não óbvia ao se camuflar no andar, existe uma leitura que ainda manteria aberta essa indefinição ontológica dos trabalhos enquanto objetos.

Cada um deles, além de “coisa” é também sistema e, ainda mais, sistemas que estão conectados à energia elétrica. Monocromático amarelo é uma caixa amarela transbordada com lâmpadas de luz nessa cor, Monocromático preto é uma caixa escura que mede alguma energia indeterminada entre o livro e a lente, e Monocromático branco se transforma em uma caixa de som que perturba com a amplificação de um ruído produzido pelo funcionamento do próprio sistema elétrico.

 Indefiníveis e sem utilidade aparente, o que não podem deixar de ser é sistemas e, portanto, conjunto de elementos relacionados entre si.

Não se trata, pois, de problema de cor tonal propriamente dito, mas, por seu caráter de indeterminação (que também preside muitas vezes o problema da cor tonal), de uma busca dessa “dimensão infinita” da cor, em inter-relação com a estrutura, o espaço e o tempo. O problema, além de novo no sentido plástico, procura também e, principalmente, se firmar no sentido puramente transcendental de si mesmo.

O que é então o mundo para o artista criador? Como estabelecer relações com ele?”[1] 

Em 1905, Einstein mostra que a luz é feita de partículas: “Parece-me que as observações associadas à fluorescência, à produção de raios catódicos, à radiação eletromagnética que emerge de uma caixa e outros fenômenos semelhantes ligados à emissão e à transformação da luz são mais compreensíveis se assumirmos que a energia da luz se distribui no espaço de maneira descontínua[2]. Esse experimento, feito no interior de uma caixa de luz, é um dos pilares da física quântica, mas tendo sempre que lidar com duas grandes questões: o problema da descontinuidade, assim como da capacidade e/ou utilidade na criação de experimentações que só podem ser valorizadas ou confirmadas na existência do mesmo sistema que as gera.

O exemplo mais conhecido dessas problemáticas é o paradoxo do gato enunciado por Schrödinger em 1935. No experimento um gato era colocado em uma caixa opaca e fechada. Dentro existia também uma garrafa de gás tóxico. Do lado, um medidor Geiger estava pronto para detectar em outra caixa selada uma fonte radioativa, existindo só 0,5 % de probabilidade do elétron ser detectado e, exatamente, a mesma probabilidade de não sê-lo. No caso do medidor detectar essa partícula radioativa, acionaria um martelo colocado sobre a garrafa de veneno dentro da caixa onde o gato está, liberando o veneno e matando o animal. Assim, o sistema consiste na superposição dos estados possíveis – vivo ou morto – do gato. Só quando a caixa é aberta e o observador entrar dentro da equação é que um dos estados é determinado. Antes desse colapso, a visão indeterminista permite essas conclusões que ficam fora da lógica clássica.

A discussão sobre a veracidade das medições e experimentos feitos ao longo do século XX foi o ponto capital do desenvolvimento da ciência moderna. A grande questão sobre as medições quânticas e a função da onda nelas coloca continuamente em dúvida o conhecimento que temos sobre um sistema. Uma das últimas teorias explica que elas são a expressão de nosso conhecimento sobre um evento e não a representação dos eventos, deixando aberta, desse modo, a porta para o conceito aristotélico de potência (de possibilidade de ser)[3].

Com esse cenário, poderíamos repensar as relações de um sistema a partir da perspectiva de múltiplas possibilidades, nomes e funções, sendo essa mostra e o centro cultural nosso lugar controlado de experimentação. Cada uma das obras de Anna Israel é um sistema; elas se relacionam no espaço criando um outro novo sistema que chamamos exposição; ao mesmo tempo, se relacionam com as outras propostas que acontecem em paralelo dentro do programa de exposições; o prédio do CCSP é outro sistema conectado a outras variáveis… e assim sucessivamente. E as possibilidades de ser, do gato estar vivo e morto ao mesmo tempo, estão lá, presentes em cada um dos sistemas e suas relações.

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Uma única concessão: Monocromático Branco (ou Homenagem a Hurbinek). Anna Israel introduz nessa opção – essa variável no título que pode ser uma, a outra, ou pode ser as duas ao mesmo tempo – uma referência à linguagem, mas também àquele possível idioma antes da codificação dos sistema linguísticos. A do menino que chora num idioma não conhecido[4], mas cuja existência não deixa de estar presente no ininteligível. Como uma capacidade de nos relacionar antes mesmo de um verbo ser falado.

 

 

 

[1] Hélio Oticica, A transição da cor do quadro para o espaço e o sentido de construtividade, 1962.

[2] Carlo Rovelli, Sete breves lições de física, Ed. Objetiva, 2015.

[3] Antonio J. Diéguez, “Realismo y teoría cuántica”, Contrastes: revista interdisciplinar de Filosofía, vol.I, 1996.

[4] Relato de Primo Levi incluído no livro “A Trégua”, 1963, no qual uma criança chora numa língua estranha no campo de concentração de Auschwitz.