Fábio Tremonte / Parágrafo Único

Textos / Texts
05/2015 / Pivô, São Paulo, Brasil.
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Mark Lombardi (1951-2000) chamava os trabalhos que começou em 1994 de “estruturas narrativas”. Os desenhos a lápis são esquemas de relações de nomes de corporações, políticos e empresários. As referências foram tomadas por ele de fontes públicas que organizou em mais de catorze mil cartões. A união lógica de dados e fatos que o artista mostra – narra – é um exercício de síntese das engrenagens do poder, que serão reveladas como escândalos políticos e financeiros nas décadas seguintes.

Dados quase aleatórios para pensar sobre a edição livre

Tradicionalmente ensina-se que a primeira imprensa foi inventada pelo alemão Gutenberg em 1447, sendo um dos fatos revolucionários que iniciam a Era Moderna Ocidental. O uso de tipos móveis em metal e o sistema de impressão permitiam a reprodução de múltiplas cópias de textos que aumentava, assim, a capacidade de difusão de conhecimentos. Gutenberg conseguiu realizar as provas do maquinário e dos primeiros textos graças ao financiamento do banqueiro Schöffer. A primeira publicação foi lançada em 1456, mas Gutenberg já saíra da sociedade um ano antes, arruinado por não poder devolver o empréstimo ao empresário, que ficou com o negócio editorial.

Não se costuma ensinar este dado: o primeiro sistema de impressão com tipos móveis foi inventado por Pi Sheng por volta do ano 1040, quatro séculos antes, na China.

A partir de 1515 o Vaticano controlava por lei a edição de qualquer Bíblia, que não podia circular se não tivesse sido previamente aprovada pelo poder papal, gerando os consequentes monopólios editoriais. A censura foi estendida a qualquer livro que nos estados cristãos deveria ter aprovação do bispo para poder ser publicado.

Naqueles mesmos anos, Martinho Lutero, monge agostiniano especialista no estudo das escrituras sagradas na Universidade de Wittenberg, começa a redigir sua tese para a Reforma Protestante. Esta série de noventa e cinco medidas para uma volta aos princípios primitivos da Igreja, apoiada pelos príncipes eleitores alemães desfavorecidos pelas relações de poder entre Roma e o Sacro Império Romano-Germânico, foram publicadas num panfleto que foi afixado na porta da igreja de sua cidade. Sua rápida difusão se deu graças ao uso da imprensa.

Hoje, a Bíblia está proibida em vários países, entre eles a Coreia do Norte. Este governo proíbe a entrada de qualquer material com propaganda antigovernamental, religioso ou pornográfico.

Lista de alguns livros que alguma vez estiveram proibidos
Aristófanes, Lisistrata, 411 a.C.
Johannes Kepler, Epitome Astronomiae Copernicanae, 1617-1621.
Frithjof Sælen, Snorri, a baleia, 1941
Miguel Ángel Asturias, O Señor Presidente, 1946
Ray Bradbury, Fahrenheit 451, 1953
Aleksandr Solzhenitsyn, Arquipélago Gulag, 1973
Ignácio de Loyola Brandão, Zero, 1974
Ruben Fonseca, Feliz Ano Novo, 1975
Renato Tapajós, Em câmara lenta, 1977

“Sendo a base de nossos governos a opinião do povo, o primeiro de todos seus objetos deve ser manter este direito; e, se me deixassem decidir se devemos ter um governo sem jornais, ou jornais sem governo, não hesitaria um momento em preferir este último”. Carta de Thomas Jefferson a Edward Carrington, Paris, 16 de janeiro de 1787.

Assim como no Turcomenistão e na Eritreia, na Coreia do Norte, a liberdade de imprensa não existe.

Acta Diurna é considerado o primeiro jornal da história. No ano 59 a.C. Júlio César decide tornar públicas tanto as jornadas do senado como os avanços do exército romano nas diferentes províncias do estado, bem como outros eventos de interesse. O texto talhado em pedra ou metal levava sempre um carimbo oficial para garantir sua “veracidade”. Era colocado nos foros e protegido por legionários, e algumas cópias manuscritas em papiros eram distribuídas nos grandes centros. Consciente do poder da informação, esta publicação era totalmente parcial e controlada.

A análise “Classificação da liberdade de imprensa 2014”, realizada pela ONG Repórteres sem Fronteiras, aponta o decrescimento de dito direito em países democráticos. O exemplo de maior repercussão é o dos Estados Unidos, que com a máxima de proteger a segurança de estado, tem realizado escutas e vigilância de jornalistas e informantes, e tem perseguido os responsáveis pela publicação de dados considerados “delicados” como o Sargento Manning, condenado em 2013, ou Edward Snowden.

“Neste ano de impetuoso progresso…
(de um jornal de Ilhéus, em 1925)”
Capítulo primeiro. Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela, 1958.

Entre 1987 e 2008 o projeto “Donos da Mídia”[1], do Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação, analisou em todo o estado brasileiro quem possuía os meios de comunicação e suas relações com o poder político, revelando quem eram, a que partidos pertenciam e quais eram suas posturas diante das resoluções que afetavam a liberdade de expressão, outorga de concessões, resultados eleitorais, etc. A estes dados, somemos os fornecidos pela BBC na matéria de 18/07/2011, sobre a concentração quase total dos jornais, rádios e televisões ativas no Brasil em mãos de apenas dez famílias.

“Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
Artigo 1º, Fundamento 5º, Constituição da República Federativa do Brasil, 1988.

Lista dos trabalhos de Fábio Tremonte presentes na exposição

Espaço público | intervenção com cartazes e gráfica de serigrafia e estêncil | 2015
Vândalos, rebeldes, terroristas, vagabundos, manifestantes [vermelho s/ preto] | 2013/2015
Vândalos, rebeldes, terroristas, vagabundos, manifestantes [preto s/ vermelho] | 2013/2015
Parada + Rubronegro | bandeiras | 2014/2015
Parágrafo único | vídeo instalação | 2013-2015

Uma letra, um símbolo ou um gesto são meios que o povo tem para exercer e mostrar sua vontade. São meios comunitários, que nascem e têm sentido no coletivo. McLuhan analisando as consequências dos usos de diferentes tecnologias da comunicação – o meio é a mensagem – diz: “O conteúdo da escrita é o discurso, do mesmo modo que o conteúdo da imprensa é a palavra escrita, e a imprensa, o do telégrafo. Se alguém perguntasse: «Qual é o conteúdo do discurso?» Eu teria que lhe responder: <É um verdadeiro processo do pensamento, que, em si, é não verbal>”[2].

E que significado tem agora desfilar e dobrar bandeiras, escrever nas paredes ou participar de uma oficina de gráfica, quando a imagem e a comunicação digital são as que marcam o dia a dia? Talvez seja o momento no qual poderíamos nos aproximar da “literarização das condições de vida” que Walter Benjamin[3] pedia para definir o autor-produtor e o leitor-produtor, como base para a nova comunicação e sociedade. Um ideal que colocava numa utopia soviética que finalmente não daria certo, mas que criaria teoricamente um lugar de relação entre o pensamento artístico e a comunidade, o momento de trabalho em condição de igualdade, o tempo para a reflexão, e uma possível via de expressão em liberdade.

Lista de alguns exemplos de usos da edição livre no mundo da arte

Ernesto de Sousa (Lisboa, 1921-1988), publica em 1965 o ensaio “Artes Gráficas. Veículo de Intimidade”, no qual qualifica o veículo gráfico não como instrumento, mas como aquele que contém liberdade, exemplo de um progresso real que recupera a palavra e o objeto cotidianos para uma nova nobreza que une os pensamentos realistas e a fenomenologia para a formação de um conhecimento contemporâneo.

Beau Gest Press / Livro Ação Livre fundada em 1972 por David Mayor, Martha Helión e Felipe Ehrenberg, Langford Courts, Devon, UK. Funcionava como um coletivo dedicado à publicação experimental de obras de poesia visual, espírito neodada, entre outras, encontravam-se as obras de Ulises Carrión, Yoko Ono, Rubens Gerchman, Antonio Vigo, William John Gaglione ou Raúl Marroquín , além de propiciar a formação duma rede de mail art de artistas do leste europeu e da América Latina, assim como a revista que os compilava, Schmuck.

Paulo Brusky (Recife, 1933) escreve em 1976-1981 o texto “Arte Correio: Hoje a Arte é este Comunicado” onde reúne a heterogeneidade das práticas associadas à circulação via correios como sistema alternativo de criação, produção artística. Um sistema fora do sistema institucional e comercial, que tem na edição e desenvolvimento da gráfica uma das formalizações mais importantes, todos entendidos como veículos de pensamento.

Taller de Gráfica Popular, de Magdalena Jitrik, Mariela Scafati e Diego Posadas, é uma iniciativa que, seguindo as experiências francesas de 68 e dos ateliês mexicanos dos anos 40, é criada no contexto da crise na qual se encontrava a Argentina em 2002. A proposta consiste em oferecer oficinas na rua, participando em movimentos de protestos e lutas sociais, e captando o momento em imagens reproduzidas em camisetas, num processo de socialização da produção e criação de situações estético-políticas.

Minha última lista (resumo do porquê da importância da edição livre como atividade artística)

Toda ideia veiculada, seja texto seja imagem, é concebida como prática artística, sendo este o verdadeiro motor criativo e sem necessidade de sua posterior formalização objetual.

A transmissão e a circulação destas ideias são intrínsecas à sua criação.

Tal circulação permite a subversão de narrações hegemônicas (as colonialistas ou as institucionais, por exemplo) e a criação de novas propostas, transformando-se no meio indispensável para a função crítica.

É um trabalho que nasce do coletivo e é o motor na criação de redes.

Cria uma economia alternativa ao mercado, através da rede de intercâmbio entre artistas e sua livre circulação.

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[1] Durante a realização deste texto o site www.donosdamidia.com.br deixou de ser acessível.

[2] Understanding Media: The Extensions of Man by Marshall McLuhan ©1964, The MIT Press, Massachusetts.

[3] Walter Benjamin, O autor como produtor, 1934