Rodolpho Parigi / Febre

Textos / Texts
09/2013 / Pivô, São Paulo, Brasil.

Só sabemos se estamos com febre ao medir a temperatura 

All colours depend on light.

Here is an idea not only poetical in (sic) an high degree, but strictly and philosophically just. Extreme light, by overcoming the organs of sight, obliterates all objects, so as in its effect exactly to resemble darkness.

The eye is not the only organ of sensation, by which sublime passion may be produced. 

When we have before us such objects as excite love and complacency, the body is affected

The imagination is the most extensive province of pleasure and pain, as it is the region of our fears and our hopes, and of all our passions that are connected with them; and whatever is calculated to affect the imagination with these commanding ideas, by force of any original natural impression, must have the same power pretty equally over all men… Love, grief, fear, anger, joy, all these passions have in (sic) their turn affected every mind…

The passion caused by the great and sublime in nature, when those causes operate most powerfully, is Astonishment; and astonishment is that state of the soul, in which all its motions are suspended, with some degree of horror.

Edmund Burke, A Philosophical Enquiry into the Sublime and Beautiful, 1757.

Rodolpho Parigi me contou que decidiu ser artista quando, durante sua primeira viagem pela Europa, entrou ao Museu do Prado, em Madri, na sala 29, onde encontram-se penduradas as histórias mitológicas que Rubens pintou em sua viagem à Espanha entre 1630 e 1638. Pinturas de até dois por quase quatro metros que ocupam toda a extensão da parede forrada de tela vermelha. Excesso e exuberância poderiam ser duas das palavras que definem essas obras. Rubens é o mestre da cor e da carne. Seus nus retorcem-se em bailes e esforços titânicos de deuses pagãos.

Essas pinturas formaram parte das chamadas salas reservadas do Museu (1827-1838), onde estava reunida a grande maioria das pinturas de nus ou de temática “complicada” e às quais só era possível ter acesso com uma autorização especial, disposição herdada das coleções reais. Já três séculos antes, em El Escorial, Evas, Adãos, juntos com ninfas e deusas acumulavam-se num lugar oculto com acesso privativo ao rei. Rei esse que também, em segredo, realizava experiência esotéricas, não deixando nenhuma das áreas do então conhecimento científico fora de seus interesses. Na verdade, o nu, o estudo do homem e da natureza, os ritos matemáticos e ancestrais não estavam proibidos, mas sim controlados e permitidos apenas àqueles a quem Deus havia escolhido.

Esse exercício de controle se manifestou em seu máximo esplendor durante o Barroco, momento no qual um mecanismo totalmente estudado era aplicado às imagens buscando a conexão com o espectador por meio da sensualidade, entendida como forma de sedução para transmitir ideias por meio da emoção. Embora as primeiras chaves de leitura dessas obras foram as mensagens piedosas e as histórias com leitura moral, o sensual continua aparecendo nos corpos gloriosos e em êxtase de deuses e de santos, num passo além da dor e do gozo.

É durante o Romantismo quando mais uma vez surge explicitamente o interesse pelo obscuro, agora sob o signo do sublime, que se soma às estratégias de persuasão e sugestão. No texto “Do sublime e do belo”, Burke analisa empiricamente essa condição que busca o lugar de plenitude total em conexão com a natureza no desconhecido e no aterrorizante. O poder é componente também presente na construção do assombroso, numa exaustiva observação da luz, da cor, do estado de ânimo, etc.

A exposição “FEBRE” condensa esses universos, resumidos numa busca pela plenitude por meio do controle de todo conhecimento científico e sensual. Para isso, Parigi conjuga imagens de livros de anatomia com estudos de animais tanto de aparência real quanto retirados de ilustrações antigas, assim como figuras da história da arte.

Na série de colagens “Atlas” e na tela “Tamoio contra Moema”, a sedução é dada pela combinação exuberante de carne, figuras e pedaços. Esses corpos – que aludem, pela sua proveniência, a campos de estudo formal – agitam-se agora numa sorte de ritual esotérico, como se fossem os experimentos científicos de um bruxo do século XVI. As outras pinturas, “Luna” e “Sonatinas para Alair Gomes”, definidas apenas pelo traço vermelho do pincel sobre o papel branco, buscam essa orgia na contenção do gesto, seja do sofrimento, do esforço ou do êxtase.

Um último elemento completa a exposição “FEBRE”: um ambiente fechado com paredes triangulares e luzes vermelhas, onde é possível escutar a seleção musical de Rodolpho e olhar para a sala através de um acrílico vermelho. Sob o título de “Poltergeist”, é proposto como um catalizador das mesmas sensações buscadas no resto das obras. A sala funciona como vitrine que nos coloca como mais um objeto a ser analisado, como se estivéssemos nus. Resta um último detalhe: um pequeno buraco circular no acrílico, referência aos bordeis e às salas de masturbação masculinas.

Em Parigi, tudo está controlado e o excesso tem uma finalidade. Essa seleção e disposição são frutos de um processo depurado. Cada obra, todas elas finalizadas no ateliê temporário do artista no PIVÔ, tem um espaço próprio que marca o ritmo com o qual vamos descobrindo-a. Cada uma delas parece pedir o gesto de dar um passo atrás para contemplá-la e, nesse movimento, criar relações com as seguinte proposta. É o ritmo da atitude física de Rodolpho quando ele trabalha, assim como “Poltergeist” seria a tentativa de reproduzir a atitude mental com a qual encarou a realização dessas obras.

O vermelho-boîte anula o vermelho da pintura. A temperatura da cor, a luz e a música parecem nos aproximar de um estado de máxima inquietação. Santa Teresa de Ávila narrava assim seu encontro com o divino no Livro da vida, 1565, no mesmo texto que serviria como inspiração para Bernini, e inspiração também na trajetória de Parigi:

“Via-lhe nas mãos um longo dardo de ouro e, no fim da ponta de ferro, parecia-me haver um pouco de fogo. Parecia-me entrar pelo coração algumas vezes e alcançar-me as entranhas. Ao retirá-lo, parecia que as levava consigo, e deixava-me toda abrasada em amor grande de Deus. Era tão intensa a dor que fazia-me dar aqueles gemidos e tão excessiva a suavidade que me causava esta grandíssima dor que não há de desejar-se que acabe, nem contenta-se a alma com menos do que Deus. Não é dor corporal e sim espiritual, embora não deixe o corpo de ter sua parte, e até muita.”

A febre não é mais do que um mecanismo de adaptação do corpo. Sexo e êxtase podem induzir a um estado febril. E aquele que é capaz de provocá-lo, de controlar os elementos que o produzem, tem o poder. Um poder ancestral que remete à capacidade de criação dos deuses e que era buscado pelos alquimistas e pelos reis.