Luiza Baldan / Corta Luz

Textos / Texts
08/2013 / Pivô, São Paulo, Brasil.

Sobre CORTA LUZ: Obra dobra.

“Obra e vida se misturam em uma
performance dilatada, que começa em casa e se alastra
pelo prédio, pelo ateliê, pelas ruas, em reflexões sobre um
cotidiano aparentemente bastante conhecido. A obra não
tem um fim em si mesma, é uma experiência recorrente
que vai mudando de endereço de tanto em tanto, extraindo,
matéria de suas próprias dobras. Obra dobra.”

Luiza Baldan, Corta Luz, 2013.

Em 1967, Bruce Nauman colocava na janela de seu estúdio – uma antiga mercearia em San Francisco – o néon The True Artist Helps the World by Revealing Mystic Truths (Window or Wall Sign) [O verdadeiro artista ajuda o mundo revelando verdades místicas (Anúncio de janela ou parede)], imitando os anúncios de cerveja que via nas vitrines das lojas próximas. O texto em espiral joga com a seriedade de uma declaração de princípios apresentada como um anúncio comercial. Esta obra foi exposta no pavilhão estadunidense da Bienal de Veneza de 2009. Na ocasião dessa exposição, Nauman declarou à revista “The Art Newspaper” que a adoção desse tipo de anúncios veio da “ideia de usar um signo que pudesse ser lido do lado de fora, mas também por dentro”.[1]

Em julho de 2013, Luiza Baldan olha pela janela do apartamento que ocupa no edifício Copam e, através dela, vê as outras janelas dos moradores dos prédios vizinhos. Numa dela, há um coração desenhado. Ela reparou porque é uma forma que é vista igual tanto de dentro quanto de fora. Pareceria uma declaração de intenções sobre olhar a realidade cotidiana com um pensamento que se desdobra anulando a separação entre o interior e o exterior.

Durante o mês que viveu no Copam e trabalhou no ateliê temporário dentro do PIVÔ, foi registrando em suas fotografias, vídeos e escritos a rotina diária criada como mais uma habitante de um dos prédios mais emblemáticos da arquitetura moderna brasileira. A experiência, “uma internação extrema por tempo determinado”, consistia em percorrer, observar e revelar. O resultado foi exposto na sala que abrigou o ateliê, onde situou as imagens com a mesma orientação que ocupam na realidade, junto ao texto elaborado com as impressões de sua vivência.

Para Baldan, os lugares que habita são entendidos como “espaços-recipientes da existência”[2], passados e presentes. Suas referências poéticas – nunca fechadas nem concluídas, mas desdobradas como anotações – são concebidas como um registro de dobras que acontecem nesse relato cotidiano. A artista propõe um convite a apreciar essas conexões espaciais e vitais, olhando ao redor como um contínuo e revelando a ação (mover-se, percorrer, olhar, falar) como um conector entre exterior e interior dentro da trama social.

Esta ação coleta o testemunho do pensamento neoconcreto, aquele que Lygia Pape transmitia a seus alunos nas caminhadas pela favela da Maré no Rio de Janeiro em 1972: “Eu quero mostrar uma nova realidade estética e poética vital. Seria como uma REVELAÇÃO. Minha intenção no meu trabalho e minhas aulas neste momento se mostram intenficicada (sic) em vivências externas e diretas de interpretação do mundo”[3]. É inquestionável a herança que Oiticica, Clark e Pape deixaram nas gerações de artistas brasileiros que os sucederam. Isso se percebe na ruptura de limites e na superação dos espaços clássicos da arte que nos faz encarar a atividade artística como vivência do eu em conexão com o outro e na extensão com o coletivo. Suas obras construíam uma vivência fluida entre o corpo, o interior e o exterior. Em Luiza Baldan, a construção não é contudo literal, não há uma instalação ou objeto a ser manipulado que potencie as relações vitais num ato fora da cotidianidade. A obra, como ela mesma descreve, é a ação de desdobramento na circulação por um contínuo identificado na realidade. A exposição seria testemunho desse processo e ponto de reflexão para que o espectador, o outro, saísse e olhasse de fora com outros olhos essas mesmas relações vitais.

O interesse deste trabalho – e também pensando em seu desenvolvimento e exposição no PIVÔ que buscam falar sobre o processo criativo – reside na escolha mesma de um processo artístico contido em primeira instância na rotina de observar o cotidiano. Os registros realizados transmitem imediatez, as fotografias poderiam ser banais, a gravação é um ruído branco. A ação de arte apaga os limites entre casa e ateliê, se desdobra e vai além, os espaços se duplicam, anulando suas singularidades em favor de uma unidade contínua.

Os espaços escolhidos neste devir de Baldan não são fortuitos. Ela já passou, no Rio de Janeiro, pelo edifício Rapozo Lopes, em Santa Teresa, o Península, na Barra da Tijuca, ou o Conjunto Prefeito Mendes de Moraes, Pedregulho, em Benfica. Todos eles remetem de algum modo ao sonho da utopia moderna do Brasil dos anos 50 e 60 em que se constrói essa ideia de “país do futuro”, programa direcionado pelo governo numa espécie de despotismo ilustrado imposto em sua máxima potência na trama urbana de Brasília. Seguindo preceitos le corbusianos, essa nova arquitetura baseou-se em construções simples e puras sobre pilotes nas quais os vãos livres sob os prédios cediam o chão a um uso comunitário aberto, sem limites e monumental. Oscar Niemeyer (1907-2012) e este edifício, cujo primeiro projeto foi feito no ano 1951, respondiam a esses ideais. A chegada da ditadura (1964-1985) influiu diretamente no desenvolvimento da obra, com a saída do investimento estrangeiro e as mudanças posteriores, sendo inaugurado em 1966 com numerosas modificações sobre o projeto original, em forma e usos. Novamente impunha-se um modelo de sociedade de soberania e, consequentemente, de espaços fechados e controlados. Nas décadas seguintes, tanto por motivos económicos quanto sociais, o centro de São Paulo, e com ele o Copam, sofreu um processo de abandono, degradação e posterior recuperação adaptada a novos usos.

Esses lugares e sobretudo suas novas comunidades são o campo de desenvolvimento da proposta de Luiza. Sua ação de conviver, observar e revelar suas impressões busca a reflexão sobre a habitabilidade ou não desses espaços, pressupondo as relações entre o eu e o outro como imprescindíveis na construção de um espaço social. Claro que o Copam e o PIVÔ, com seus ambientes abandonados durante 20 anos e que agora estão sendo ocupados para atividades culturais – uso totalmente diferente daqueles para os que foram pensados e dos que lhe foram dados –, eram “hábitat natural” para o desenvolvimento de um projeto como Corta Luz.

A experiência não é significativa apenas pelo convite das fotografias, vídeo e som de ruído branco, para observar a partir da rotina o entorno do centro além de estereótipos arquitetônicos. Na ação de Baldan, personaliza-se a ideologia da arquitetura moderna, mas não a de grandes espaços com uma monumentalidade impositiva, e sim a que evolui para o brutalismo, presente em propostas como as de Lina Bo Bardi. Em palavras da própria Lina, “Arquitetura é ver um velho, ou uma criança, carregando um prato de comida, caminhando com altivez, com a dignidade de um ator de teatro no palco, desfilando, num dia qualquer da semana, no Restaurante do Sesc Pompéia”[4]. Fala assim de um pensamento de arquitetura definido por sucessões orgânicas do espaço em um contínuo, não imposto, mas revelado.

Essa concepção da estruturação espacial, não como limite, mas como lugar que pode ser atravessado e onde surge a convivência, é herdeiro do conceito filosófico de dobra que descreve Deleuze. No estudo de José Morales, é descrita essa relação: “A imagem mental que temos quando falamos de dobra, avalizada por todo o universo imaginativo que pode ser deduzido das reflexões de G. Deleuze e F. Guattari, propõe imensas sugestões. Uma das implicações mais interessantes seria a dificuldade para distinguir e localizarmo-nos com firmeza e claridade num espaço. Esses espaços passam do dentro para o fora, colocando em crise o conceito de recinto e, evidentemente, o de permanência. (…) Mas talvez o maior interesse se encontre na descoberta de um espaço de relação e intercâmbio à altura das novas organizações e intercâmbios sociais”[5].

Com esta residência e a exposição de seu resultado, Baldan dá a esse pensamento aplicado à arquitetura uma nova leitura, uma nova dobra levada à experiência artística como lugar sem limites de convivência e intercâmbios entre o sonho, a memória e a realidade.

 

 

[1] Wright, Karen. ”Exclusive interview with Bruce Nauman” in The Art News Paper, 08 July 2009.

[2] Definição dada por Lina Bo Bardi. In Aliaga Fuentes, Maribel. “Lina Bo Bardi: concreta poesía”, Arquitextos 04, set. 2003.

[3] Pape, Lygia. Favela da Maré ou Milagres das Palafitas, 1972. In “Lygia Pape. Espaço Imantado”, Sao Paulo 2012.

[4] Aliaga Fuentes, Maribel. “Lina Bo Bardi: concreta poesía”, Arquitextos 04, set. 2003.

[5] Morales, José. Diccionario metápolis de arquitectura avanzada. Barcelona, 2001.